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Casas que matam, até quando?

Publicação - Sana Arte

CASAS QUE MATAM, ATÉ QUANDO?

Por Marilice Costi

Trabalho apresentado no no I Congresso Internacional de Psicanálise e Intersecções – Arquitetura: um olhar sobre espaços e significados, 2002, Porto Alegre. Publicado na coluna Arquitetura Vivenciada - IAB-RS - 2004.

 

O corpo está sempre em diálogo com o meio ambiente: natural ou artificial.

Okamoto

Como pensar a casa como o espaço do afeto e o lugar de matar? Que lugar pode matar? Matar ou esconder os conflitos inerentes à vida em comum, esconder o afeto? Neste trabalho, buscar-se-á demonstrar uma diversidade de olhares no significado de casa, seus moradores e a arquitetura. Utilizaremos a palavra matar no sentido de morte da independência,da segurança, da convivência. A arquitetura não mata por si mesma, mas quando ela interfere nas necessidades de conforto do ser humano, ela mata aos pouquinhos sem que se perceba. Um ambiente físico não é determinante, mas pode desencadear doenças no ser humano.

Desde o tempo das cavernas, o homem utiliza espaços para se proteger do clima, das intempéries, das invasões de animais, dos inimigos. A casa (tenda, caverna, cabana) envolve o indivíduo, para lhe dar abrigo, espaço para sobrevivência sua e de sua família. Gaston Bachelar (1996, 25) descreve a casa como nosso canto do mundo, nosso primeiro universo, verdadeiro cosmos: "A casa, como o fogo, como a água, nos permitirá evocar, (...) luzes fugidias de devaneio que iluminam a síntese do imemorial com a lembrança. São lembranças de infância, de proteção – memória e imaginação: a casa protege o sonhador, permite sonhar a paz." Se Bachelar afirma que a casa é um local de intimidade, proteção e calor, de criação. Não havendo intimidade, nem conforto e habitabilidade, a casa pode matar? A casa constitui-se num símbolo situado entre o micro-cosmos do corpo humano e o cosmos, "um meio termo do qual a configuração iconográfica (...), importante no diagnóstico psicológico e psico-social", e para o "simbolismo da identidade" (Durand citado por Duarte, 2000). A importância da casa está, também, no poema "Aniversário" de Álvaro de Campos, homônimo de ernando Pessoa:
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, /E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.(...)/ O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,/Pondo grelado nas paredes.../O que sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),/O que eu sou hoje é terem vendido a casa,/É terem morrido todos,/É estar eu sobrevivente a mim- mesmo como um fósforo frio...

A casa carrega em si um significado e cada parte tem um significado. Ela é metáfora do próprio dono: abrigo, território, domínio, lar. Referencial. Daí a importância das barreiras arquitetônicas, impedindo a circulação, o acesso dos estranhos, o que com freqüência pode impedir a convivência, a comunicação. Uma casa pode matar quando a sua estrela não é o relacionamento entre as pessoas, mas a televisão. Casas que matam impedem a convivência. Criar espaços para o não-diálogo é criar espaços de matar. Quando são criados espaços para não se ver, não se encontrar, não viver em comunidade, estimulando um viver de forma isolada e egocêntrica, as relações humanas podem morrer. É o que se pode observar nas suítes para adolescentes ou quartos segregados para os idosos. A dimensão dos espaços também é importante. Casas grandes demais podem isolar seus moradores. Cria-se casas dentro de outras casas onde o encontro é eventual. Na busca pelo conforto máximo, a individualidade se impõe. Espaços muito grandes com baixíssima densidade de indivíduos poderão gerar distanciamento e solidão. A casa mata porque é incomunicável.

A cultura influi nas necessidades de espaço, disse Okamoto (1997). Dependendo da cultura, casas pequenas podem ser promíscuas. Se o homem morar em aglomerações, onde o território é pequeno e a densidade é alta, a perda de privacidade pode fazê-lo adoecer. As relações humanas são conflituosas em espaços inadequados. A falta de privacidade e de território individual é causa de sofrimento. Para Humberto Eco (1991,198), a casa "denota uma forma do habitar", referindo-se à sua função. Uma janela tem a função de abrir/fechar, ventilar, permitir visão para o exterior, possibilitar o acesso da luz. Uma janela que não possui função de abrir/fechar pode existir, porque o homem se apropria de seu significado. Esta janela sem função influencia no bem-estar das pessoas? Estudos comprovam que a visão para o exterior reduz o tempo de permanência dos pacientes em hospitais. E as casas que não tem janelas funcionais? Pertenceriam a um tipo de casa de matar? Uma casa pode matar quando os corredores são longos, as escadas são muitas, a comunicação entre os ambientes é precária. Uma casa com muitos desníveis é para atletas e pessoas que tem boa visão. Percorrer longos caminhos no dia-a-dia, num período em que o tempo é precioso, gera cansaço pelo esforço repetitivo, angústia e sensação de perda de tempo na vida. Muitas vezes, o terreno obriga que se faça um projeto com vários pavimentos, porão, térreo e sótão, ideais para completar nossos ícones. Mas qualquer casa exige muitos cuidados e trabalhos que cansam. E o investimento físico futuro? Uma escada poderá ser barreira a uma pessoa doente, quando o seu objetivo é dar acessibilidade. O usuário da casa sabe o que lhe reserva a vida adiante? A casa com escadas poderá romper relações com seu próprio dono.

Quem são seus usuários? doentes? desportistas? esquecidos? excluídos? crianças? deficientes físicos? um homem só? uma mulher independente? a criança abandonada? o adolescente? o doente mental? a grávida? idosos? Em meados do ano 2000, o número de idosos no mundo superou o número de crianças e adolescentes pela primeira vez. No Brasil, isto deverá ocorrer em torno de 2050.

No Brasil, 10% da população é portadora de alguma deficiência; 70% da população tem visão residual. Com o portador de deficiência visual é pior. Ele se machuca nas lixeiras, nos orelhões, nos tapumes, nos camelôs, em casas desorganizadas. As casas têm sido feitas para os saudáveis, muitas vezes, sem considerarmos suas atividades. As pessoas carregam pacotes, abastecem a casa. Mulheres carregam seus bebês, levam carrinhos. Sem conhecer os moradores, sem estudar seus costumes, sem conhecer o ser humano saber-se-á seus desejos, suas necessidades? Conhecer o ser humano e suas necessidades de conforto para desempenhar suas atividades é fundamental antes de projetar.

Casas que matam não tem conforto. Nelas, o ruído penetra impedindo o descanso, a luz urbana penetra pelas janelas atrapalhando o sono, o calor ou o frio penetra demasiado porque sua orientação solar foi inadequada ou o material não tem boa inércia, não isola. Aronin (citado por Tedeschi, 1978)relata que os japoneses davam muita importância à luz solar em suas casas e consideravam que a boa orientação estava relacionada com a felicidade de seus habitantes. Além disso, a temperatura interfere. O frio traz consigo a redução das resistências às doenças, o calor baixa a pressão, deixa as pessoas indolentes, cansadas. Cuidar da orientação solar nos projetos e orientar o usuário quanto ao uso de suas aberturas pode proporcionar melhor desempenho das casas.

A casa é um espaço que existe porque existe arquitetura? Forma e matéria, dentro e fora, luz e escuridão? Ou porque existe o indivíduo e o espaço circundante, mas não existe domínio, nem território próprio? Casas que são calçadas, bancos de praças, um lugar qualquer embaixo de uma marquise ou de um viaduto? Casas ausentes.

Na pesquisa dos moradores de rua no Rio de Janeiro, feita pelas arquitetas Ana Lúcia de Santos e Cristiane Duarte (2001), foi constatado que, quando mais estruturados, os indivíduos representam a casa concretamente, através de barracos ou barricadas. Os menos estruturados, que perderam o contato com a realidade, não têm mais referencial. Ao perderem a função primária de proteção, o indivíduo desumaniza-se, perdendo também o contato com a realidade. Sua casa "ausente" é o espaço urbano. Outra casa que mata?

Na Idade Média, os primeiros hospitais, chamados de enfermarias, eram casas de pedra com paredes muito grossas, com alto pé-direito e totalmente insalubres, com minúsculas janelas, isoladas das cidades. Havia medo de morrer ao ir para lá, pois acreditava-se que o ar contaminava por causa dos miasmas... Não havia antibióticos e a vida humana chegava próximo dos 40 anos, quando chegava. Eram casas de matar, mesmo (Costi,1997).

Na Europa do séc. XIX, com o aumento da densidade populacional nas áreas urbanas, velhos bairros se transformaram em áreas degradadas, casas velhas em áreas mais antigas viravam cortiços. Era preciso morar próximo dos centros urbanos e de locais de produção porque não havia transporte. As moradias não tinham luz nem ventilação adequadas. Relata Kenneth Frampton (2000, 14) que "as condições sanitárias eram péssimas: latrinas e lavatórios que eram externos e comuns, além de despejo de lixo contíguos.

Com um escoamento precário e uma manutenção inadequada,
tais condições levavam à acumulação de excrementos e lixo e a
inundações, o que provocava naturalmente uma alta incidência de doenças – primeiro a tuberculose,depois, ainda mais alarmante para as autoridades, os surtos de cólera na Inglaterra e na Europa Continental, nas décadas de 1830 e 1840.

No Brasil, em 1855, foi feito um relatório da cidade do Recife pelo engenheiro francês L.L. Vauthier (Freyre, 1979). Sob a influência de tal documento, higienistas pernambucanos passaram a criticar o sistema de edificação ainda predominante na cidade e insistem na necessidade de uma reforma baseada em "luz solar" e "ventilação". Em colaboração com arquitetos e engenheiros, trataram dos despejos dos excrementos das casas nas praias, das estrebarias de aluguel dispersas pela cidade sem esgotos para as urinas dos cavalos.

Desde 1854, havia ameaça do "colera-morbus" e ele realmente invadiu a cidade. Era o tempo que a casa matava a cidade e conseqüentemente seus habitantes. Assim, velhos bairros degradaram, casas morriam e suas instalações matavam. Mas isto também se encontra na área onde se inseriu as moradias para pacientes do Hospital Psiquiátrico São Pedro. A Vila São Pedro não se encontra urbanizada, cavalos defecam pelas vias sem pavimentação, o lençol freático é superficial (quando chove, o lamaçal toma conta da rua) e o cheiro de lixo exala entre as suas casas degradadas. Na tentativa de dar cidadania aos ex-internos,
dando-lhe casa, aconchego e território, a insalubridade e outros riscos passaram a fazer parte de seu dia-a-dia.

A chegada do vidro no período 1910-1925 trouxe leveza à arquitetura que rompeu o envelope rígido de contenção das atividades e projetou o olhar do usuário tanto para o exterior e quanto para o interior. Frampton (op.cit., 139) fala da visão do poeta Paul Scheerbart: "o vidro introduz à nova era", "o vidro colorido acaba com o ódio". O fato influirá na arquitetura de forma profunda. Torres de vidro, peles de vidro que têm esse caráter da modernidade são utilizadas sem escrúpulos em edifícios habitacionais, a funcionalidade das esquadrias enquanto protetora da radiação solar passou a ser desconsiderada, a imagem e a visão passaram a ser mais importantes que a privacidade. Sol e vidro formaram estufas que exigiram o ar-condicionado durante todo o século XX. Só na sua última década, passou-se a reconhecer que o ar interno se encontrava mais contaminado que o externo devido à falta de manutenção e cuidados dos equipamentos. No Brasil, tal problema só se tornou público após à morte de um Ministro de Estado, vitimado pela contaminação aérea.


Antes disso, diversos estudos já estavam sendo feitos comprovando que os materiais utilizados nos interiores tais como certos tipos de cola, fenóis e revestimentos, causavam enxaquecas, rinites, fadiga entre outras doenças. (Siqueira,1996)
A casa é o resultado da sociedade ou do arquiteto que é o seu reflexo? As casas de Mies Van der Rohe, planta livre, vidro e aço, nos remetem ao seu gênio criador e marco na história da arquitetura. Sua intenção foi revolucionária e a concretizou. Mas os primeiros donos de dois de seus pavilhões tiveram que se mudar porque seu território, conforto e privacidade foram destruídos devido ao trânsito da rodovia próxima. Apesar da integração homem-natureza através da visibilidade dos panos de vidro, a Casa Farnsworh (1945-50) impedia que as aves reconhecessem o limite entre o exterior e o interior: elas se batiam no espelhamento que o vidro criava e se machucavam. (Smithson, 2001). O automóvel matando a casa... E a casa agredindo o homem e a vida animal no entorno. Qualidade de vida implica em qualidade ambiental também. Não basta uma casa bela se ela não oferece conforto: acústica, iluminação, temperatura, ventilação. Não adianta um bom atendimento médico, se a casa está sobre um valão de esgoto. De que adianta ter o que comer, se quando chove há desproteção?

Um local de morar pode ser causador de doenças, pode matar. Por isso se discute tanto a necessidade de infraestrutura. Técnicos da áreas de saúde e o próprio Presidente da República, afirmam veementemente, que se gasta muito mais com remédios do que com prevenção. Prevenção é investir em esgoto, água potável, energia. Habitação com dignidade.Le Corbusier (Ver une architecture in Frampton, op.cit.) escreveu: Se eliminarmos de nossos corações todos os conceitos mortos a propósito das casas e examinarmos a questão a partir de um ponto de vista crítico e objetivo, chegaremos à "Máquina de Morar", a casa de produção em série, saudável (também moralmente) e bela como são as ferramentas e os instrumentos de trabalho que acompanham nossa existência.

Mas para Freyre (1979), a casa é mais que máquina de morar, é local de convivência, todo um ethos, onde decorrem experiências habituais, influências culturais de heranças familiares e o meio, em várias datas e em vários espaços.Lugar complexo a partir de onde a existência se configura e
expande. A casa em série proposta por Le Corbusier não se desenvolveu adequadamente para todos. Talvez porque os conceitos estão mais arraigados do que ele pensava e a capacidade crítica e objetiva passou a se tornar o alvo dos especuladores. Muitos edifícios já nasceram mortos pelo descaso de seus construtores e pela falta de cultura para o uso de equipamentos até então desconhecidos. Vasos sanitários foram arrancados e muitos viraram vasos de flores em condomínios habitacionais de baixa renda na década de 60. O que se constata é que a sociedade, apesar da tecnologia que tem, não tem considerado as necessidades de seus usuários e a sua cultura, seu grupo social. A churrasqueira tão importante para os eventos sociais entre grupos e familiares, passou a ser para póucas pessoas. Hoje, elas estão na maioria dos novos apartamentos, mas os usuários perguntam: "E o espaço para os amigos?"

Muitos governos tentaram resolver o problema habitacional no Brasil, mas a violência urbana, decorrente do crescente empobrecimento da população, assume caráter nacional a partir da expansão incontrolável dos assentamentos metropolitanos, cujos governos não contam com recursos para atender ao mínimo de infra- estrutura. (FINEP, 1985) Os terrenos distantes inviabilizam a qualidade da casa, porque uma casa não é só metáfora: ela é também o seu entorno: a escola, a farmácia, o posto de saúde, o esgoto, a água potável, o abastecimento, o transporte para o trabalho.

Conjuntos habitacionais da década de 60 e 70, no século XX, demonstram a distância dos recursos e a falta de identidade, que é o que vai ser estudado por muitos pesquisadores que verificam que os usuários, na sua busca de identidade ou por falta de cultura, vão alterando a casa, mudando aqui ou acolá, juntando lixo, marcando seu território. Ainda são produzidas casas que distanciam física e mentalmente os indivíduos. A vida útil de uma casa deve ser, no mínimo a de seu dono. Ninguém faz uma casa própria pensando que no ano seguintevai trocar de casa como quem troca de roupa a cada estação. Mesmo que a casa seja para toda a sua vida, ao sonhar com ela e a projetar através de um arquiteto, o homem omite sua velhice como se a juventude fosse permanente como a mídia propaga. Atualmente, a casa é uma prisão. Seus usuários a fecham a sete chaves. São alarmes, câmeras, guardas, guaritas, grades, cercas elétricas. Este "esconderijo" para si mesmo e de si mesmo não é saudável. Cada vez mais o indivíduo, de medo, se fecha, prendendo-se, mata um pedaço de sua liberdade. Destrói parte de si que precisa se expressar e sentir o exterior para viver. A arquitetura vem convivendo com os problemas sócio-econômicos mas ainda não encontrou uma solução para impedir que o homem seja prisioneiro de sua própria casa. Uma casa que segrega, que limita, que controla, que retira a individualidade pode conter a agressão? A agressividade que se encontra contida em penitenciárias, hospícios, favelas, é tanto assustadora quanto deprimente. Associar a agressividade, a miséria, a doença mental e a velhice a um tipo de edificação?

Poder-se-ia descrever muitos problemas sociais e descortinar atrás deles, um tipo de arquitetura, um caráter. Tentativas de agregação e sociabilidade em tais conjuntos vêm ocorrendo, historicamente, mas a morte social, mental ou física é real. Mesmo que parte da sociedade venha tentando mudanças para reintegrar o homem, ainda estamos muito longe de soluções definitivas. A agressão ao planeta é ato desumano e passa pela arquitetura. É o que a televisão mostrou em 11 de setembro de 2001. A arquitetura: objeto, símbolo, destruição. Tal tipo de arquitetura também pode destruir o meio ambiente. As torres de vidro estão modificando microclimas: ambientes que parecem ter conforto porque são climatizados, podem estar destruindo um ecossistema. O uso inadequado de materiais pode provocar alterações microclimáticas. Em São Paulo, existem ilhas de calor com diferenças térmicas de 15 graus Celsius, devido à inexistente vegetação urbana, ao ar-condicionado que joga para a área urbana o calor solar absorvido pelo envelope dos edifícios.


Uma casa que pode matar é aquela onde existe risco de vida os seus usuários e de seus vizinhos. Em áreas urbanas, mantas aluminizadas vêm sendo colocadas em telhados sem critério, nem o município regulamenta nem exerce controle. Como espelhos, dependendo da inclinação dos telhados, jogam calor para as superfícies do entorno, impedindo que as pessoas abram suas janelas, podendo prejudicar a visão e alterando flora e fauna. Mata-se a casa do vizinho em benefício próprio. Havendo risco para os seus usuários, suas prováveis causas são: deficiência no projeto, má construção, mau uso dos espaços concebidos e ausência ou manutenção precária (Ornstein,1992).
Acidentes ou o envelhecimento do ser humano não devem obrigam as pessoas a trocarem de casa. Os desníveis que podem deixar os espaços bonitos, podem inviabilizar um futuro uso. O arquiteto tem a responsabilidade ao projetar, de possibilitar uma reformulação do espaço no futuro. Na Holanda, não se projeta mais sanitários com portas de 60cm de largura, pois as adaptações se tornam muito caras e dependendo do projeto, são inviáveis. Nos países desenvolvidos, existe a procura de um desenho universal, enquanto no Brasil ainda estamos preocupados com rampas, corrimões, pisos irregulares e nem conseguimos fazer cumprir a NBR 9050, de 1985 que trata da Adequação das edificações e do mobiliário urbano à pessoa portadora de necessidades especiais.

Qualquer casa deveria ser universal e protetora do ser humano. Portas que abram para fora dos ambientes tais como sanitários e quartos, larguras das portas que permitam passagem de cadeiras de rodas, níveis diferenciados com barreiras de proteção, móveis ergonométricos adaptados às individualidades de cada um, corrimãos, peitoris, alarmes, campainhas, interruptores mais baixos, materiais fáceis de manter e de movimentar, que permitam adaptações simples e baratas. Colocar rampa para acesso de carrinho com compras é uma solução singela e adequada. Mas o que encontramos são degraus muito altos que exigem um esforço para serem vencidos, vagas de estacionamento estreitas, zonas de embarque distante dos acessos, desníveis inadequados, falta de proteção pluvial, falta de sinalização táctil ou sonora, rampas com declividade acima do permitido ou a ausência de rampas. A casa que mata é inflexível, pois não acompanha as modificações pelas quais passarão os seus usuários.

O arquiteto Adolf Loos, filho de um pedreiro, nascido em 1870, escreveu A história de um pobre homem rico. Certa vez o cliente, comemorava seu aniversário. Havia ganhado presentes da mulher e dos filhos. Ele apreciou tudo e estava desfrutando ao máximo. Logo, porém, chegou o arquiteto para pôr as coisas em seu lugar e tomar todas as decisões sobre os problemas mais difíceis." O proprietário recebeu-o com grande prazer, quando ele entrou na sala, pois tinha a cabeça cheia de idéias, mas o arquiteto nem pareceu tomar conhecimento de sua alegria. Tinha descoberto algo muito diferente e ficou lívido. "Que chinelos são esses que você está usando?", perguntou, como se a dúvida o enchesse de dor. O dono da casa olhou para seus chinelos bordados, mas em seguida
respirou aliviado. Desta vez, sentiu-se sem culpa alguma. Os chinelos haviam sido confeccionados segundo a concepção original do arquiteto. Ele então respondeu, assumindo ares superiores: "Ora, senhor Arquiteto! Já se esqueceu de que foi o senhor mesmo quem os desenhou?" "Claro que não me esqueci", trovejou o arquiteto, "só que foram feitos para serem usados no quarto! Aqui,
não dá para perceber que essas duas manchas impossíveis de cor acabam completamente com a harmonia da sala?" (Frampton, op.cit., 103)

A responsabilidade do arquiteto tem sido cada vez maior: abrigar pessoas que perderam parte de suas capacidades motoras e dar-lhes vida digna em suas casas e na cidade será sempre um desafio. A casa deverá prolongar a vida porque será feita para impedir acidentes, possibilitará independência e os equipamentos serão facilitadores de trânsito, haverá apoios nas atividades, barras, luzes para iluminar os caminhos, espaços estimuladores de convivência social, locais seguros, acessibilidade. Woods, em 1968, na Trienal de Milão afirmou: "nossas armas estão cada vez mais sofisticadas e nossas casas brutalizam-se cada vez mais. Será este o balancete da mais rica civilização desde o início dos tempos?" As casas precisam de equilíbrio, assim compreendido por Lisistzky (1923): "O equilíbrio que procuro obter nesse espaço deve ser elementar e capaz de mudar para que não possa ser perturbado por um telefone ou uma peça de mobiliário padrão. O espaço está ali para o ser humano- e não o ser humano para o espaço." (Frampton, op.cit., 159). Este tema foi retomado por De Carlo que criticou ao revisar as conseqüências da declaração de CIAM, (Congresso Internacional de Arquitetura Moderna,1928):


(...)temos o direito de perguntar"por que"a moradia deve ser o mais barata
possível, e não por exemplo, relativamente cara, "por que", em vez de fazer todo
esforço possível para reduzi-la a níveis mínimos de superfície, de espessura, de
materiais, não deveríamos torná-la espaçosa, protegida, isolada, confortável,
bem equipada, rica em oportunidades de privacidade, comunicação, intercâmbio,
criatividade pessoal. Ninguém, na verdade, pode dar-se por satisfeito (...)
quando todos sabemos o quanto se gasta nas guerras, na construção de mísseis e
de sistemas antibalísticos, nos projetos de exploração à Lua, (...) na persuasão
secreta, na invenção de necessidades artificiais, etc."
O arquiteto tem que conhecer a sociedade onde vive, os diferentes grupos sociais, as necessidades psicológicas, sócio-econômicas e culturais, com um olhar realista e empático. O regionalismo crítico (década de 60) propõe uma arquitetura que busca sua identidade cultural, dando ênfase aos valores específicos do lugar: topografia, luz que incidirá e seu valor tectônico, respondendo de forma articulada às condições climáticas, opondo-se à tendência da "civilização universal" de privilegiar o ar-condicionado em detrimento da arquitetura bioclimática, tratando as aberturas como zonas de transição com capacidade de reagir às condições específicas do lugar, pelo clima e pela luz. Ele refere-se à percepção do ambiente, não só relativo à visual, mas de forma holística pois o ser humano é sensível às variações de iluminação, de calor e frio, umidade e deslocamento de ar, bem como à diversidade de aromas e sons produzidos por materiais de diferentes volumes, acabamentos de pisos que exigem mudanças no modo de andar. Afirma que é necessário opor-se à "tendência, numa época dominada pelos meios de comunicação, de substituir a experiência pela informação." (Frampton, op. cit.) Tais metas influenciam projetos, mas não informam sobre as necessidades do ser humano. Uma casa que pode ser adequada a um indivíduo, poderá não ser adequada para outro. Portanto, há que ouvir os usuários, entender suas necessidades e projetar para eles.
Ninguém deseja uma casa que mata. Mas ao construí-la, esquece-se que a velhice é um fato concreto e o futuro de todos, esperado pelo menos. É preciso que haja a possibilidade de a usufruir sem o sofrimento da dependência. Autonomia é vida. Para que se possa afirmar, como no folclore português: "A minha casa/A minha casinha/ Não há casa/ Como a minha", a casa futura, um grande desafio, deverá ser mais "da vida", a que permitirá e estimulará o homem em qualquer momento ou idade, deverá ter conforto e acessibilidade, estimulará o convívio social, a solidariedade e a comunicação entre seus moradores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Bachelard, Gaston (1993). A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes.
  2. Costi, Marilice (1997). A sala de morrer e a máquina de curar - a enfermaria gótica e o hospital renascentista. Monografia. Porto Alegre: Faculdade de Arquitetura . Programa de Pós-Graduação em Arquitetura. UFRGS.
  3. Eco, Umberto (1991). A estrutura ausente. São Paulo: Perspectiva. 7e.
  4. FINEP – GAP (1983). Habitação popular: inventário da ação governamental. Rio de Janeiro.
  5. Freyre, Gilberto (1979). Oh de casa! Rio de Janeiro: Artenova.
  6. Frampton, Kenneth (1997). História crítica da arquitetura moderna. São Paulo: Martins Fontes.
  7. Okamoto, Jun (1996). Percepção ambiental e comportamento. São Paulo: IPSIS.
  8. Ornstein, Sheila; Roméro, Marcelo (1992). Avaliação pós-ocupação do ambiente construído. São Paulo: Studio Nobel, EDUSP.
  9. Siqueira, Luiz Fernando (1996). Arquitetura e bem-estar dos pacientes. Em:CONGRESSO DE Oftalmologia, 1º Congresso Internacional de Catarata e Cirurgia Refrativa, 27 a 30 abr.TV MED vídeo, São Paulo. Fita de vídeo. n. 00291/64.
  10. Smithson, Alison y Peter (2001). Cambiando el arte de habitar. Barcelona: Gustavo Gilli.
  11. Duarte, Cristiane Rose; Santos:Ana Lúcia Vieira dos.(2000) Usos, percepção e transformações no espaço urbano por populações de rua: um estudo de caso no Rio de Janeiro. Em: SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE PSICOLOGIA E PROJETO DO AMBIENTE CONSTRUÍDO. Rio de Janeiro. Anais. UFRJ. Cd rom.
  12. Tedeschi, Enrico (1978). Teoría de la arquitectura. Buenos Aires: Nueva Visión.

 

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