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Quem é o cuidador no século XXI?

Publicação - Sana Arte

Quando escutamos o noticiário ou lemos o jornal, mesmo aos sábados – dia do descanso – notícias de assassinatos e agressividades envolvendo mães, pais, irmãos, casais são jogadas aos nossos olhos. Se antes eram as guerras, hoje temos uma matança surda que vem de dentro das famílias, da comunidade. Se antes, achava-se que as pessoas eram más porque eram doentes mentais, hoje, é cada vez mais claro que os doentes mentais são os que menos agridem. Os ditos “sadios” agridem no trânsito, nos condomínios, no trabalho, nas escolas e também nos lares. A sociedade adoecida. O planeta pedindo socorro. Tudo interage e o resultado está aí. 

Faz pouco, portadores de sofrimento psíquico passaram a ser integrados na sociedade com a desmanicomialização e projetos de inserção, atendimentos e moradias – resultado de muitos cuidadores em ação. Eles passaram a ter direito a um salário mínimo mensal, aliviando os familiares. Parece que tudo está bem? Mas ainda não está. Isto é apenas um ponto.

O governo passou então a se preocupar com o envelhecimento da população. A economia estatal percebeu um gargalo. Resultados do avanço da medicina, das guerras que movimentam pesquisas e hospitais, novas tecnologias: temos a previsão de milhares de idosos. Um segundo ponto.

Um terceiro, temos catástrofes climáticas que geram – e isto já é fato – comunidades em pânico, destruição de bairros inteiros, desemprego, vetores, epidemias.

Quem vai cuidar de tantas pessoas? Os cuidadores, os familiares e os contratados. Todos nós. Nascemos – a exceção dos psicopatas – cuidadores. Podemos desenvolver a empatia, adquirir sabedoria e nos prepararmos para acolher tantas pessoas, compartilhar o que fizemos – e o que acertamos – com os demais. Se antes, a aldeia cuidava de uma criança indígena, agora a nossa aldeia precisa cuidar de todos. Porque, na hora dos desastres climáticos, não existe classe social, não existe hierarquia, não existe rico e pobre. Existem seres humanos. Nosso grupo.

Este é um dos motivos pelos quais compreendo a dificuldade das pessoas se verem como cuidadores. Para cuidar, é preciso se predispor a, estabelecer o próprio limite, aprender a articular-se com os outros. Um cuidador não deve estar só.

Iniciei meu trabalho editorial pensando nas mães de pessoas com transtornos psíquicos, depois percebi a quantidade de cuidadores na sociedade. Homens que também cuidam, avós, tios, irmãos e um exército institucional de acolhedores. Mas, também, como afirmou Armindo Trevisan numa das revistas O CUIDADOR, existem os que não querem cuidar. Estes, não são psicopatas, são seres humanos que não percebem em si, para o que fomos feitos: amar o semelhante, respeitar, ser ético e cuidar. Pagar um cuidador para se ver livre do cuidado é diferente de contratar um profissional para que a pessoa que precisa seja bem atendida. Idosos não conseguem cuidar de idosos sem apoio dos demais. E já estamos vivendo isso em milhares de famílias. 

Está em regulamentação a profissão de cuidador. Mas será preciso mais que isto: mídia comprometida com o ensino do cuidado, não apenas focado no de idosos, mas de tantos outros que estão ao nosso lado, no bairro ao lado, na cidade ao lado, em outro Estado. E para citar apenas um exemplo, desenvolver a solidariedade nas escolas, levar aos alunos o pensar sobre a sua responsabilidade no que se refere à saúde das populações: os postos em vilas, as escolas, os abrigos, as implantações urbanas, as áreas de vida, a sustentabilidade, tantas coisas! E os políticos? A impedir o uso de encostas, de áreas de risco; a valorizar os planos diretores, a fiscalizar, a estimular as pessoas para o comprometimento com o cuidado. O coletivo, a rede social. 

Há décadas atrás, falar em patrimônio histórico nas áreas rurais era impedir que as casas de pedras se perdessem em fundações de novas casas. Hoje, o turismo enriquece a região. Mas não podemos pensar em cuidar das pessoas projetando isso nem 10 anos à frente. Importante envolver muitas pessoas no cuidado: ler, compreender, aceitar, participar, acolher, compartilhar. Adquirir sabedoria no cuidar. Perceber a retribuição de quem cuidamos. Pode ser apenas um olhar. Colocar-se no lugar do outro: a empatia! Ter orgulho por estar exercendo a nossa humanidade. Todos somos cuidadores ou seremos cuidados por algum! Não é melhor cuidar?

Marilice Costi
é editora-chefe da revista O CUIDADOR

 

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