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Tempos Frágeis - Marilice Costi - Ed. Movimento

Publicação - Sana Arte

R$28,00

ISBN: 978-85-7195-141-9
Editora: Movimento

 "Tudo durou o tempo suficiente para que se extinguisse o encanto e a realidade se fizesse forte." Essa frase, tirada do conto Descartável, talvez seja a que melhor define Tempos frágeis, coletânea de contos com que Marilice Costi brinda o leitor e a literatura gaúcha.

Ocorre que a atmosfera dos seus contos é forte, densa, transbordante da realidade bruta, tanto mais bruta quando se assume como normalidade. O que é o final, por exemplo, deAbuso? "Na rua, abre o guarda-chuva e acompanha Teófilo até o carro a caminho do manicômio." Ou de Ele, ela e Marcos,
quando o narrador, testemunha de uma vida, manifesta-se diante da morte:
"Sentirei falta do seu abraço. Mas não derramarei uma lágrima. Finalmente, ela descansou." É o que surpreende o leitor.

Marilice Costi é uma fina crítica da realidade, das relações interpessoais falidas, da miséria, da
exclusão social, dessa que, de tão acostumados, quase já não percebemos, da solidão. É quando a literatura assume seu papel de falar por aqueles que não têm voz, aqueles como Jaciara que "Perdia novamente, como vinha perdendo dia a dia."

Histórias em ruínas recompõe o final do século XX, o totalitarismo é um exemplo disso como
o é em Tempos frágeisDessa forma, a autora nos coloca diante de dezoito contos curtíssimos, onde faz questão de manter a conexão com o real transfigurando seres e situações. É
assim quando o Mick Jagger visita o Rio Grande! É assim o quotidiano feminino de Rotação feminina da terra. São assim as contradições de Enrodilhada nas contas.

Suas pessoas ficcionais são seres condenados à vida, espreitados pela solidão e, não raro, pela morte, flagrados por um estilo notadamente pessoal, realista, direto, sem muita elaboração de linguagem, a não ser em O Caracol e o ar, em que se concede a liberdade de introduzir neologismos.
Não há revelações nem pequenas sutilezas nos contos. Há, isso sim, e aí reside, por ventura, a importância da literatura de Marilice Costi, a indignação transformada em conto, na tentativa de acordar a nós, leitores, atores sonambólicos e indiferentes a estes tempos frágeis, os nossos.

Definitivamente, a autora já disse a que veio. E veio com força e qualidade. 

(a) Jane Tutikian

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Tempos frágeis mostra a nova etapa de uma escritora que vinha se dedicando à poesia e ao ensaio. Marilice Costi reinventa a realidade e vai além das aparências. Expõe, às vezes com real crueza, a inquieta vocação da literatura, que não é a apresentação de soluções, mas um inventário de questionamentos. Várias de suas histórias apresentam personagens em situações-limite.Há quem acredite numa literatura feminina. Talvez, independente de autor ou da autora, o que há é uma sensibilidade aguda; esta sim pode ter um olhar, um viés, uma percepção peculiar que parece também caracterizar a poesia, as crônicas e, aqui, os contos de Marilice Costi.Suas histórias revelam-se convincentes, contundentes e permanecem além da leitura. E possuem uma força de verossimilhança que só escritores ligados umbilicalmente à nossa aventura cotidiana parecem atingir.

(a) Fernando Neubarth

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MARILICE COSTI: OS BENEFÍCIOS DA CONCISÃO

O leitor está diante de uma escritora que tem o que dizer e sabe como fazê-lo, o que não é pouco e é suficiente. O conto, que já viveu seu esplendor como gênero, foi abandonado por todos, mas quão delicioso é descobrir quem saiba contar direito uma história curta. Este é o caso de Marilice Costi, mais uma das tantas amostras do momento decisivo de nossas letras, ocorrido no século passado, quando a mulher passou de personagem a autora.
O mundo está sempre desarrumado para os personagens de Marilice Costi. Também parecem desarrumados seus sentimentos de narradora preocupada com o destino das criaturas que fazem coisas do arco-da-velha nessas narrativas curtas muito bem ordenadas.
Quando se deslocam do interior para a capital, repetindo o velho trajeto do campo para a cidade, que marcou todas as literaturas do mundo, o que mais apreciamos nela é a cor local, de que é exemplo De Boas Referências, o conto que abre este livro. 
A moça, apresentada como de boas referências, não demora a sofrer os impactos do brutal descenso, quando cai das platitudes das vilas no abismo da grande cidade. Com apenas catorze anos, é estuprada pelo filho da patroa. Ele, bêbado e bruto, rouba-lhe a virgindade. Grávida, adentra então a um caminho de todos conhecido, buscando um aborto que pode levar mãe e filho à morte ou então preservar apenas uma ou as duas vidas para mais sofrerem, como se, em vez de viver, cumprissem penas perpétuas.
O destino para uma delas, algum tempo depois: "O grupo dos alcoólatras anônimos se reunia todos os sábados à noite perto de sua casa. Acompanhou-a na primeira vez. Quem sabe era o caminho? Ela era caprichosa". 
E mais adiante lemos:"Quando não bebia, carregava na sua hiperatividade a viuvez prematura de um homem que ela julgava bom, que dormia com o revólver sob o travesseiro e que a supria. O marido morrera dirigindo uma carroça, atropelado por uma jamanta no caminho para Marau. Ela assistira a tudo, inerte". 
E no desfecho ma triste despedida: "Na janela, Jane viu o rosto esquálido sorridente e um abano. Da calçada, leu o movimento dos lábios dela: pode me esperar, que eu volto, mãezinha. E fez dois círculos com o dedo indicador próximo à cabeça quando formou no ar uma espiral". 
Em Caso Proibido comprovamos a melhor qualidade desta contista: a concisão. Com objetividade, sem perder o rumo, resume uma bela história de amor entre Lauro e Matilde, recuperando um gosto dos antigos, de procurar os valores da rotina, hoje muito esquecido. Com efeito, aurea mediocritas, a bela expressão criada por Horácio, veio a designar o modo de vida do imbecil, do ignorante, como se o ponto médio e o equilíbrio fossem coisas deploráveis. Com sagacidade, Marilice Costi apresenta o seu contencioso, mostrando nestas e em diversas outras narrativas, o quanto a felicidade deve a uma vida estável.
Em História em Ruínas, Gilberto passa de diplomata a perseguido político que busca a proteção umbrosa da clandestinidade, daí a mendigo, em rápidos parágrafos. Perde o amor, perde tudo, mas é visto dançando na praça depois da famosa campanha que buscou recuperar o direito de uma geração inteira da qual tinham roubado o direito de votar para presidente da República. Mas sua Isabel, em que caminhos se extraviou? Nem falta a sutil alusão ao passado jesuítico que impregna o Brasil meridional há tantos séculos, como lemos: "Mas quando as Diretas Já explodiram na rua, ele foi encontrado dançando no Parque do Trabalhador. Vestia um traje guarani e escrevia em esperanto. Esperando sempre que Isabel, que voltara para o interior, o encontrasse. Quando ele saísse da guerrilha, os jesuítas aceitariam Isabel no grupo. Ela era artista, ele sabia que a arte missioneira só tinha a ganhar com ela".
Enfim, não precisamos tomar toda a sopa da panela para ver se está boa de sal, se tem gosto de boa comida. Narrativas como esta não devem ser devoradas como as rápidas leituras de livros que insistem em fazer com que o leitor se ajude a si mesmo. Não é o caso. Curtamos devagar, em goles comedidos, como se faz com um bom vinho, estes contos, igualmente amadurecidos sem o tormento do prazo.

(a) Deonísio da Silva - Prefácio

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